Este artigo apresenta uma análise detalhada de As Crônicas de Nárnia – O Cavalo e Seu Menino, de C.S. Lewis. O livro narra a fuga de Shasta, um menino escravizado, e Bree, um cavalo falante de Nárnia, do seu cruel dono. A narrativa acompanha a dupla em sua jornada rumo a Nárnia, encontrando outros personagens e desafios ao longo do caminho, culminando em um encontro com o verdadeiro Shasta, um príncipe, e uma série de eventos que envolvem intrigas palacianas e uma batalha. Finalmente, a história aborda a resolução de conflitos e o reencontro de Shasta com sua família e seu lugar legítimo na sociedade.
A Jornada de Shasta e a Busca por Liberdade
Shasta é um menino órfão, abandonado ainda bebê em circunstâncias desconhecidas e criado por um pescador abusivo chamado Arsheesh. Desde o início, sua vida foi marcada pelo desprezo e pela indiferença. Este homem, que se autodenominava seu “pai”, não demonstrava nenhum tipo de afeto ou compaixão pelo menino. Pelo contrário, tratava-o mais como uma posse do que como uma criança sob sua responsabilidade.
Desde cedo, a rotina de Shasta era exaustiva e sem qualquer sinal de alívio. As tarefas árduas eram uma constante: carregar cargas pesadas, consertar redes de pesca, limpar a casa e cuidar do burro — tudo sob o olhar severo e crítico de seu “pai adotivo”. Além disso, Arsheesh, um homem avarento e temperamental, frequentemente descontava suas frustrações no menino, tornando sua vida ainda mais difícil.
Para piorar, quase todos os dias, Arsheesh saía de manhã para pescar e, à tarde, atrelava o burro à carroça para vender os peixes no vilarejo. Quando as vendas eram fracas, ele retornava ainda mais irritado e, sem hesitar, descontava sua frustração no menino. Muitas vezes, isso significava gritos e humilhações, mas, em outras, ia além, chegando até mesmo a espancá-lo.
Assim, o som dos gritos de Arsheesh e o ranger de sua voz autoritária ecoavam como uma ameaça constante na vida de Shasta. Dessa forma, o menino crescia sem amigos, sem carinho e, acima de tudo, sem liberdade.
A Sombra da Escravidão
A tentativa de Arsheesh de vender Shasta a um Tarkan (nobre calormano) expõe de forma crua a realidade brutal da escravidão, bem como a vulnerabilidade de Shasta como órfão em um mundo indiferente.
O Tarkan, montado em seu imponente cavalo e cercado pelo peso de sua posição social, observa Shasta com olhos avaliadores, como se estivesse examinando um animal à venda.
“Agora, meu anfitrião, quero dizer-lhe que estou pensando em comprar-lhe este menino”, declara o nobre.
Ao ouvir essa proposta, Shasta sente pela primeira vez um terror profundo e uma inquietação urgente. As palavras do Tarkan são um choque para o menino, mas também uma revelação. Ele descobre que não é realmente filho de Arsheesh, mas sim uma criança que foi encontrada abandonada.
Esse momento de revelação é ao mesmo tempo devastador e libertador para Shasta. Ele compreende que, se não agir, será condenado a uma existência ainda mais opressiva. Essa situação se torna o catalisador para a decisão de Shasta de fugir.
O Encontro com Bri e o Início da Aventura
A chegada de Bri, um cavalo falante de Nárnia, marca um ponto de virada na vida de Shasta. O encontro inesperado com uma criatura tão singular não só expande sua visão de mundo, como também desperta nele a coragem necessária para lutar pela liberdade.
Bri revela sua verdadeira identidade como um cavalo falante de Nárnia que foi capturado e levado para Calormânia ainda jovem. Apesar de ser tratado com aparente cuidado por seu dono, Anradin, Bri deixa claro que sua vida está longe de ser digna ou livre.
“Você quer saber sobre o meu dono? Ele se chama Anradin, um sujeito cruel. Ele me trata bem apenas porque sou valioso, mas você seria mais feliz morto esta noite do que vivendo como escravo dele”, confessa Bri.
A relação entre os dois começa de forma tensa, mas logo dá lugar a uma parceria genuína, fundamentada no desejo compartilhado de liberdade. Bri compartilha com Shasta seu plano de fuga, pintando o norte como um lugar de liberdade e segurança.
A determinação de Bri, somada à sua confiança inabalável, inspira Shasta a enfrentar o medo e embarcar em uma perigosa jornada rumo ao norte.
A Importância da Liberdade
A fuga de Shasta e Bri é uma jornada carregada de simbolismo e profundidade emocional, onde o anseio por liberdade e dignidade humana se entrelaça com a busca por um futuro mais justo e pleno.
Bri representa a luta contra as amarras da opressão e a busca incansável pela autonomia.
“Sou um narniano livre. Por que usaria a linguagem de escravos? Não quero que ele viva em cativeiro, muito menos para sempre.”
Para Shasta, a fuga vai além de um simples ato de deslocamento geográfico. Ela se traduz em uma jornada interna de autodescoberta, onde ele começa a desafiar sua visão limitada sobre si mesmo.
A Jornada de Aravis e a Luta Contra o Casamento Forçado
Aravis, uma Tarkina (nobre mulher calormana), vive em uma sociedade onde as mulheres são frequentemente usadas como moeda de troca em casamentos arranjados. Seu pai, seduzido pelo poder e riqueza, a oferece em casamento a um homem cruel, Ashosta.
Ao contrário das mulheres conformadas de sua sociedade, Aravis decide desafiar as expectativas impostas a ela. Fingindo aceitar o casamento, ela engendra um plano astuto para escapar.
“Disse ao meu pai: ‘Deixe-me ir aos bosques com uma amiga para refletir sobre meu destino’. Era uma mentira, mas necessária.”
Aravis foge e se junta a Shasta e Bri, tornando-se uma peça-chave na jornada. Sua presença adiciona complexidade à história, abordando temas como a resistência feminina e a luta contra imposições sociais.
Conclusão
A imaginação pode ser um refúgio, mas também uma ponte para compreender o mundo. O Cavalo e Seu Menino é mais do que uma história de aventura; é uma narrativa sobre identidade, liberdade e coragem. O percurso de Shasta e Aravis representa a superação de limitações impostas pelo nascimento e pelas circunstâncias.
C.S. Lewis constrói uma história envolvente, repleta de lições sobre a luta contra a opressão, a busca pelo pertencimento e a importância da autodeterminação.
Ao longo do livro, cada personagem descobre que a liberdade verdadeira não está apenas em escapar da escravidão física ou social, mas também em compreender seu valor e propósito no mundo.