1 Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Diáspora no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia,
2 eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo. Que a graça e a paz lhes sejam multiplicadas.
3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,
4 para uma herança que não pode ser destruída, que não fica manchada, que não murcha e que está reservada nos céus para vocês,
5 que são guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para ser revelada no último tempo.
[1 Pedro 1.1-5 | NAA]
Na perícope textual destacada, vamos analisar a presciência de Deus e a eleição segundo 1 Pedro 1:2, que diz que Deus Pai escolhe os eleitos ‘segundo a sua presciência’. Mas o que isso significa? É o que tentarei responder a seguir.
Primeiramente, qual a relação entre a presciência de Deus e eleição segundo 1 Pedro 1:2? Certamente, Pedro não estava se referindo apenas ao conhecimento onisciente de Deus sobre fatos futuros, incluindo o fato de as pessoas virem a crer em Cristo, como sugerem os arminianos. Nossa eleição não depende da nossa fé, pois isso implicaria uma eleição baseada no mérito, o que contraria o ensino das Escrituras de que a salvação vem exclusivamente pelo favor imerecido de Deus, ou seja, pela graça (Ef 2.8; Rm 11.6). Portanto, Deus nos elege para a fé, e não por causa da fé. Esse é o primeiro ponto que devemos considerar antes de prosseguirmos com a definição do que significa presciência dentro do texto bíblico.
A Presciência Relacionada a Deus Pai
Observe que Pedro diz que somos ‘eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, PARA a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo’. Perceba que, em nenhum momento, relacionam o termo ‘presciência’ à ‘previsão de fé’ ou ‘fé prevista’ dos eleitos.O termo está claramente vinculado ao próprio Deus Pai: “presciência de Deus Pai”. Portanto, afirmar que essa “presciência” se refere à “previsão de fé” ou ao fato de que certas pessoas viriam a crer é uma inserção arminiana baseada em especulações e inferências “eisegéticas” (não confundir com o termo exegese) que não se encontram no texto, nem mesmo no contexto, seja ele imediato, remoto ou geral. Trata-se apenas de uma dedução, sem base no conteúdo bíblico; nada mais além disso.
A Obra da Trindade na Salvação
Além disso, o texto aborda a obra da Trindade em favor da salvação dos eleitos: “presciência de Deus Pai”, “santificação do Espírito” e “aspersão do sangue de Cristo”. Aqui, vemos a economia da salvação desenvolvida pela Trindade Santíssima. Nesse contexto, diz-se que Deus elege os salvos segundo a sua presciência, os santificando pelo Espírito para obedecer a Jesus Cristo e receber a aspersão do seu sangue. Ou seja, Deus os elege para a salvação mediante o perdão dos pecados.
Em nenhum momento o texto ou o contexto sugerem que essa eleição decorra de uma ‘fé prevista’. Caso contrário, estaria escrito “por causa da obediência” em vez de “para a obediência”. Isto está alinhado com o que o apóstolo Paulo escreveu aos Efésios, ao dizer que os salvos pela graça foram ‘criados em Cristo Jesus PARA boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas’ (Ef 2.10).
A Eleição e o Relacionamento Afetivo de Deus
Outro ponto importante a ser destacado é que, nas Escrituras, a ideia de ‘conhecimento’ costuma ter uma dimensão mais afetiva do que puramente intelectual. Por exemplo, a versão ARC traduz Gênesis 4.1 como: “E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu, e teve a Caim”. Obviamente, esse ‘conhecer’ não implica que Adão estivesse passeando pelo jardim em uma tarde de domingo, quando, de repente, Deus o apresenta a Eva, e, ao vê-la pela primeira vez, a convida para um diálogo, perguntando seu nome e tomando conhecimento de quem ela era. É claro que não é sobre esse processo que o termo verbo “conhecer” está se referindo; é muito mais do que isso. Conhecer aqui fala da mais íntima relação entre duas partes distintas, nesse caso, o homem e a mulher. Isto é, o termo “conhecer” fala de intimidade, de relacionamento, e nesse caso específico, usado para designar um íntimo relacionamento evidenciado pela conjunção carnal.
Assim, vemos que no texto bíblico, “conhecer” nem sempre se refere à previsão antecipada de fatos futuros ou atividade meramente intelectual. Então, quando Pedro fala em “presciência”, ele se refere ao decreto de Deus ou à determinação referente àqueles a quem Ele salvaria em tempo oportuno. Essa “presciência” é inseparável do plano eterno de Deus.
A Base do Decreto Divino
Portanto, a presciência de Deus e a eleição, em relação ao seu povo significa que ele ama sua igreja de maneira essencialmente afetuosa e relacional, em decorrência de um relacionamento determinado por ele desde a eternidade, de modo que decretou enviar seu próprio Filho para morrer por ela. A eleição, portanto, ocorre com base nesse amor eterno decretado por Deus. Deus não é como aquele aluno que consegue acesso antecipado ao gabarito de uma prova, e só marca as alternativas correspondentes por ter, fraudulentamente acessado previamente o gabarito da prova. Deus conhece o futuro porque tudo está debaixo de sua vontade decretiva, seja do decreto eficaz ou seu decreto permissivo. Assim, a presciência de Deus refere-se ao fato de que ele amou seu povo desde sempre, desde o tempo chamado de eternidade, e não a uma “espiadinha” no futuro. Enfim, Deus não precisa ter acesso antecipado ao “gabarito da prova” para acertar em suas escolhas livres.
Logo, é absurdo afirmar que Deus elegeu pessoas com base em uma “fé prevista”. Quem faz essa afirmação claramente não considera o absurdo que ela representa. O argumento arminiano, inclusive, sugere que Deus, pela sua “presciência”, viu quem iria crer, e então, ao observar quem iria crer, elegeu essa pessoa para a salvação. Se isso fosse verdade, o decreto da eleição estaria condicionado à decisão humana, de modo que a decisão humana determinaria o decreto de Deus. Isso significa que o decreto divino dependeria ou seria definido a partir da decisão do homem, o que, além da inversão de papel, é um absurdo completamente antibíblico.

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